Sonho de gueto
Quero ser feliz no gueto onde eu nasci
É sabido que os níveis do déficit de moradia é um dos índices
mais nefasto nas nossas grandes cidades. O povo abandona o
campo e vem morar nas cidades – debaixo dos viadutos, ou nas
favelas. É o conhecidíssimo “êxodo rural” - para o qual a solução
é única: REFORMA AGRÁRIA.
Aqueles que não conseguem moradia digna logo se sujeitam
(e se adaptam!) aos barracos sub-humanos de um 'conglomerado',
uma (sejamos politicamente incorretos) favela, nome ou
eufemismo para Senzala. Enquanto as elites habitam seus
apartamentos duplex com cobertura e seus condomínios, ou seus
castelos medievais; os pobres e miseráveis, humilhados e ofendidos,
precisam co-abitar em barracas de lona, entre quatro paredes de
tijolos nuas e argamassa crua.
É a falta de espaço e dignidade, enquanto meia dúzia de fidalgos,
senhores feudais são donos (nominais) de terras que sequer
conhecem! Donos de metade do estado do Pará! Donos do Maranhão!
Donos das Alagoas! E famílias inteiras obrigadas a compartilharem
um quarto! É esse o nosso BRASIL PARA TODOS ??
Então os oprimidos e explorados se aglomeram em senzalas (as
favelas) e precisam aceitar esta condição. As elites dizem que é
assim mesmo: falta loteamentos, falta infra-estrutura (exceto,
obviamente, para as elites!) Precisam aceitar e alegremente.
Viver no guetto e ser feliz. Cômico se não fosse trágico. Ao contrário
de garantir moradia digna nas cidades – ou distribuir as terras, para
os camponeses continuarem no campo – as elites armam seus
'esquemas ilusórios' e mercantilizam o guetto.
Sim, os donos do mercado comercializam o gueto! Programas de
adaptação dos favelados à condição de... favelados! “Quero ser feliz
na favela onde eu nasci!” eis o hino da nova geração de favelados
(pelo menos daqueles que sobrevivem.) Já que existem as favelas
(e vão durar muito tempo ainda, no atual sistema!) vamos ao menos
glamourizar o lugar. Vamos divulgar as artes, incentivar os meninos
do hip-hop, do reggae, deixar que falem, sem mudar muita coisa
(a menos que o menino for criminoso e sobreviver OU virar jogador
de futebol, e sair da favela rumo ao estrelato milionário...)
A favela é legal. Dizem (as Elites, claro) e glorificam a 'arte das
margens', os artistas marginalizados (até o Palácio das Artes abre
as portas...), de forma que a Arte legitima o guetto. Culpa da Arte?
Não, esta bem serve aos propósitos da Casa-Grande: instrumentaliza
o 'pão e circo' da Senzala, promove rodinhas de samba e capoeira.
Depois inventa umas cotas raciais para aliviar a pressão. Os
nazistas não fariam melhor.
A glamourização da favela – na música, no cinema, na literatura –
está para além do risível, está no absurdo e no caricatural. Imaginemos
os nazistas glamourizando o Guetto de Warsaw (Varsóvia). Os artistas,
antes de descerem aos fornos crematórios, vão tocando belas sonatas
de Chopin. Que glamour. (Nos KZ – campos de concentração – os alto-
falantes tocavam Beethoven!!)
Assim, ao contrário de acabarem com as favelas, e proceder ao
loteamento dos latinfúndios, as elites inventam vários programas
assistencialistas, paternalistas, varguistas, pão-e-circo, tudo o que os
fascistas adoram! O povo domesticado e doutrinado – anestesiados
pelos padres e pastores vendendo loteamentos no Paraíso Celeste! -
enquanto os pobres sobrevivem e se reproduzem, e se chacinam e são
chacinados, nas senzalas pós-modernas com televisão a cabo e
parabólicas.
O governo do Estado de Minas Gerais inventa, por sua vez, seus
assistencialismos – o que o Governador não faria para poder chegar
ao Palácio do Planalto? - com o sugestivo título de VOZES DO MORRO,
como a dizer: vejam, estamos dando voz aos excluídos! Vejam, como
somos bondosos: deixamos o povo falar. Mas falar o que? O que já está
pré-aprovado nos regulamentos, que interessa ser divulgado – ou
cooptado (pois não a MTV não tentou 'comprar' os Racionais?)
Principalmente o : “Quero ser feliz na favela onde eu nasci”. Se há
o hip-hop engajado, de protesto, há também a contra-partida, o ópio
(ou lixo) sonoro, o vulgo funk (nada semelhante ao funk made in USA!
Viva James Brown!), que não passa de uma batida eletrônica com
pseudo-vocais, pseudo-cantando, uns chavões sexistas e com
coreografia de ato sexual (de preferências as fêmeas já semi-nuas e
os machos de calções mais folgados, confortáveis...)
E depois o funk torna-se a vingança da senzala: os meninos e meninas
das casas-grandes passam também a ouvir (digo: consumir) o tal funk,
e se entregam a orgias nas classes médias, sempre ouvindo a voz
do morro, assim como os fidalgos ouviam samba nos terreiros
(devidamente anônimos...), e deixam seus carros do ano, super-
tecnológicos, com sons em potência máxima entoando as vozes do
morro... “Quero ser feliz na favela onde eu nasci”
Os nazistas teriam adorado a ideia: nada de exterminar o ghetto:
vamos fazê-los dançar até cairem de fadiga! Fazê-los rebolar e cantar
até o desmaio final! Fazê-los felizes enquanto agonizam! Depois a
gente roda um filme para a glória da 'raça eleita', ou da elite eleita.
De repente, a Arte legitima o guetto. De tens fome, vais ouvir o
álbum do Racionais e matas a necessidade com uma boa dose de
fúria e ressentimento. E se não bastar, pode-se comprar um dose de
pó – nem sempre refinado – mas suficiente para uma viagem –
muitas vezes sem retorno.
E vamos viver felizes nos guetos onde infelizmente nascemos.
Set/09
Leonardo de Magalhaens
um trecho de artigo na internet
A numeralha é monstruosa. Pesquisadores se debruçaram sobre o mapa de homicídios no país para extrair o número de uma tragédia anunciada: 33 mil jovens e adolescentes serão assassinados no Brasil até 2012, se nada for feito para deter a matança. Seria o caso para intervenção preventiva de tropa de paz da ONU, mas infelizmente esses virtuais cadáveres são praticamente invisíveis.
A pesquisa foi feita pelo Laboratório de Análise da Violência da Uerj, com base em dados do Ministério da Saúde e do IBGE, em 267 dos 5 mil municípios brasileiros com mais de cem mil habitantes.
Nessa macabra estatística, o Rio fica em 21o lugar, mas, proporcionalmente, é a terceira cidade mais violenta para a juventude pobre entre as capitais e o primeiro lugar em número absoluto - 3.423 almas de jovens seriam ceifadas pela morte violenta até 2012 (ou seja, em três anos). O número equivale a mais de 10% do total da previsão e pouco mais da metade dos homicídios registrados por ano, no Estado do Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro continua lindo, mas muito perigoso para quem tem entre 12 e 18 anos, é pobre e vive numa favela ou na periferia. São jovens mortos por disparos de arma de fogo, em confronto com outros jovens criminosos - chamados de adolescentes em situação de conflito com a lei - alvos de grupos de extermínio ou, pior de tudo, inocentes que estavam no lugar errado e na hora errada. Muitos foram mortos pelo simples fato que não tiveram a chance de nascer em lugares menos tensos do que favelas dominadas por grupos armados, onde são mais frequentes as situações de violência de todo tipo.
Um dos parceiros da pesquisa é o Observatório das Favelas - uma ONG que nasceu na Maré e que desde o ano passado criou o Programa de Redução da Violência Letal contra Adolescentes e jovens. Se algum político já tivesse procurado saber o que é isso, talvez não fosse preciso tanto alarde para a questão da violência contra os jovens. Ela estaria sob controle. O presidente Lula reconheceu que ainda faltam muitas políticas públicas para enfrentar o problema, mas que está tentando fazer a sua parte. Só que ninguém sabe direito qual a parte que lhe cabe para interromper a profecia do extermínio.
O ponto letal dessa tragédia anunciada é que, na verdade, setores formadores de opinião da sociedade estão se lixando para esse drama. Com certeza se assustam com os números, mas não são capazes de tentar ver nomes, rostos e famílias inteiras por trás deles. Porque são incapazes de se colocar no lugar do outro. Não têm filho, muito menos adolescente, nunca foram a uma favela ou sequer abrem o vidro do carro para ver um pouco da pobreza, de passagem pela periferia, nas viagens de fim de semana. O mais seguro, pensam, é manter os vidros fechados, com insufilme, e o ar condicionado ligado.
lecy @ 15:01 Tags: violência ensaio Brasil MST Morumbi Copacabana Rocinha Reforma Agrária

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