Os Descaminhos da Melancolia III
Os descaminhos da melancolia III
Talvez fosse melhor nos atermos ao significado mais literário da palavra crônica, mas a vida, principalmente essa da correria desenfreada e da banda larga, tem preferido o significado, digamos, mais pejorativo dessa palavra.
E pensar que houve um tempo em que almoçar e jantar eram atos cerimoniosos e sem a menor pressa. A vida era destilada em horas de alimentação e a reunião de pessoas numa residência para dialogarem era um verdadeiro happening. Não. Eu não sou desse tempo, bem menos deste. Também não me vejo tomado por uma falsa e ordinária nostalgia.
A brevidade das horas cuida de nos adoecer. Precisamos correr muito, afinal, o mundo está acabando e correr é uma maneira de fazer mais coisas antes do fim do mundo, não é verdade?
Acontece de sobrar um tempinho que não está previsto nas horas de serviço assalariado. Assim, eu posso fazer uma fogueirinha no quintal, queimar capim ressecado e alguns gravetos crepitantes. Também olho para um pé de tangerina que neste ano bateu recorde de suicídio de frutas. Tantas foram as quedas voluntárias que nem Isaac Newton ficaria mais surpreso. Depois observo um pé de graviola e uma dança de pardais em sua copa. Alguns escolhem o galhinho mais frágil e perigoso e lá ficam se coçando e dizendo: repare em nossa leveza. Nós podemos, você não pode!
Assim, recolho-me a uma visível limitação. Sem esse papo de filosofia tediosa, nada de autopiedade, Também não costumo ouvir OK, COMPUTER do Radiohead para curtir depressão. Os remanescentes dos anos setenta do século Vinte diriam: fossa.
Para não terminar essa crônica de maneira crônica, eu continuo achando que todos os dias são como domingo. Mas como diria uma banda de rock desconhecida: eu acredito no amanhã.
Lecy Pereira Sousa
lecy @ 01:16 Tags: Crônica

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